Sorrateiramente seguiu os ruídos que se faziam no final do corredor e como se já não soubesse do que se tratava , inutilmente arqueou uma sombranselha ao notar o homem velho adentrando aquela porta por mais uma vez.
O seu relacionamento com a menina parecia o mesmo desde o dia em que abriu os pequenos olhos para o mundo pela primeira vez , e como em todo dia simplório , cumpriria suas obrigações tomando o cuidado para que nada viesse decepcionar os seus senhores, porém estava ficando cada vez mais difícil conviver com toda a informação que seu sistema armazenava. Chi Hoon não se envolvia com os crimes, porém não lhe agradava servir uma família que deles participavam como se pudesse agradar a seres humanos normais.
A polícia estava em alerta , e os detetives faziam o seu trabalho investigando, o que lhe dava a certeza de que mais cedo ou mais tarde todo aquele circo acabaria, porém em seu pensar gostaria de que isso fosse um pouco mais cedo, para que mais pessoas não se machucassem.
Adentrou o quarto de sua senhorita como fazia em todas as manhãs para poder acorda-la. A menina passava mais tempo com a obrigação de seus estudos do que falava com a família , então mal a via dentro da casa, apenas quando deveria fazer algo para ajuda-la era solicitado.
Com muita paciência aguentava todas as palavras hostis que lhe era cuspidas , principalmente quando deveria repreende-la por ordem dos pais. A resposta da menina sempre era a mesma, o fato de Chi Hoon ser apenas uma máquina sem sentimentos, apenas tendo suas obrigações como era de seu sistema.
O adorável rapaz abrira as cortinas , puxando-as delicadamente para que os raios de sol pudessem iluminar o quarto , abrindo os olhos da menina.
Os humanos possuíam um rosto horrível pela manhã, reclamavam sempre e as vezes nem sorriam durante o café da manhã. Reclamavam por terem de ir a escola ou ao trabalho, e discutiam por filosofia, política e religião. Jogavam chiclete nas causadas... Quase não agradeciam, quase não se abraçavam, quase nunca ficavam parados, não conseguiam dormir a noite , não ficavam em silêncio. Porém para Chi Hoon, que possuía a mais linda e serena face de um anjo quando levantava-se, sempre obedecia as ordens de seus senhores com um sorriso, sempre suportava as brincadeiras de mal gosto que o menino Henry fazia consigo com sua harmoniosa paciência , que possuía sua própria opnião guardando-a para si como correta e que sempre tampava os ouvidos durante as reuniões dos assassinos bem em frente de seu nariz preferindo conferir se a menina dormia em segurança na quietude da noite dando-a um beijo na testa - que a mesma nem percebia - achava lindo simplesmente o fato de poder ser um humano.
Os humanos se apaixonavam, eles sentiam, eles odiavam, brigavam, podiam escolher coisas boas ou coisas ruins, podiam comer coisas gostosas, podiam sussurrar o seu amor sem nenhuma dificuldade, eram únicos como cada estrela que o grandioso céu possuía.
Seu maior sonho era poder ser como eles eram, gostaria de possuir defeitos, de chorar de sentir ódio, de amar...Porém era sempre lembrado ao fato de ser apenas uma máquina.
__Chi Hoon! -Gritou a menina ao cobrir a cabeça com o cobertor cor de rosa __Eu não vou ir a escola hoje.
Era sempre a mesma coisa. Era sempre o mesmo discurso e mesmo assim ele nunca se cansava.
__Mao, é um privilégio muito grande poder levantar-se...- Pensava em quantas pessoas não poderiam faze-lo. __Por isso devemos agradecer sempre . -Concluiu.
__E o que você entende disso Chi Hoon?! -Soprou com deboche __Você é um robô que minha mãe comprou para mim passar o tempo.
Engoliu a seco .
__Você não sabe o que é levantar , não sabe o que é agradecer , não sabe como é chato ser de carne e osso...
Era o seu maior sonho.
__Toma! -Exclamou ao jogar o cobertor indo em direção à estante onde guardava seus livros __ Coloque os meus materiais de hoje dentro da minha mochila enquanto eu me preparo para o café da manhã.
__Mao...-Chamou __Você...
__Você não fez o meu trabalho de história?- Interrompeu-o ao lembrar-se __ É isso que vai me dizer?
O robô caminhou graciosamente até a escrivaninha abrindo a gaveta e retirando de lá o emaranhado de folhas.
__Eu mesmo o escrevi, porém era preciso faze-lo com a sua letra.
__Me dá. - Ditou ao puxar de suas mãos pálidas os papéis __ Continue assim Chi Hoonnie...-Sorriu sarcasticamente ao depositar um beijinho na bochecha do mesmo __Quem sabe assim o Wu Fan não desiste de te jogar no lixo...
__No Lixo?- Assustou-se
__Eu estou apenas brincando seu bobo, agora vai pegar os meus sapatos enquanto eu irei tomar o meu banho.
Foi treinado como todos os outros companheiros e pôde observar que apenas os perfeitos continuaram no estabelecimento , os defeituosos se destinaram ao lixo, então por que seria jogado fora se também resistiu aos testes sendo considerado o mais belo e perfeito?
Podia constatar que não fazia muito tempo desde que estava naquela casa e apesar de ter sido vendido por um preço caro , se sentia inútil, pois não era como um ser humano. Não tinha sentimentos, não parecia importante , como eles que sempre estavam apressados para alguma coisa, que sempre se vestiam tão bem e se olhavam no espelho, que sorriam diante de uma boa notícia , que choravam diante do desespero , que se entristeciam...
Achava lindo a forma como o coração parecia apertar , enrugando a testa , pressionando os lábios uns aos outros , logo notando as pupilas diminuindo , as pálpebras cerrando-se e finalmente as pequenas gotículas escorregando veemente pela face congelada , mas ao mesmo tempo tão cheia de expressões e sentimentos.
Achava lindo quando os humanos choravam, pois em seu pensar parecia-lhe a demostração do mais sincero sentimento. Pensava que o que chamavam de lágrimas, parecia-lhe os sentimentos que os mesmos não poderiam proferir com os lábios, então , os olhos falavam por si, os olhos derramavam aquilo que o coração, cheio de restrições tentaria dizer.
Porém , a única vez que observou alguém em tal ato , fora diante daqueles que o criara, uma vez estando emocionados em finalmente finalizar todo seu sistema e dos demais companheiros que ali estavam, prontos para serem vendidos junto consigo. Gostaria de perguntar o que estavam fazendo, por que derramavam água pelos olhos bonitos, o que sentiam quando tal coisa acontecia, porém, calou-se ao ser colocado dentro da sala onde ainda seria testado.
Nos primeiros testes nem percebia o tempo passar, pois estava tão estático ao responder as perguntas que nem mesmo dera importância aos demais objetos.
Parecia mesmo ser perfeito, não possuía defeito algum, poderia satisfazer completamente um humano, e isso era grande motivo de alegria para os pesquisadores, que em seu ver ganhariam milhões e milhões a troca do que chamavam de Perfeito.
Porém , quando precisou sentir dor ao levantar todo aquele peso, ao ter de suportar toda a brutalidade, para provar que seria resistente , teve de temer.
Seu corpo doía, assim como o coração, ao tentar entender porque faziam aquilo, por que sorriam enquanto os demais eram surrados , por que gargalhavam enquanto alguns caíam sobre o chão.
Todos estavam novamente de pé , sem expressar dor , os mais fortes não possuíam nem mesmo um arranhão ou sujeira na pele que lhe parecia indêntica a dos humanos, porém olhava com dificuldade para os joelhos que ainda estava apoiado no chão, e naquele momento o desespero lhe cercou o coração : Não conseguia levantar.
Sabia que os defeituosos seriam destruídos , sem dor , sem sentimento , afinal , não eram humanos, porém ali, Chi Hoon provava exatamente o contrário ao sentir a palma das mãos arderem contra o chão.
Não gostaria de se lembrar de todo o sofrimento que passou no laboratório, muito menos nas salas de treinamento, pois diferente dos outros que permaneciam inertes , ele sentia.
Somente os humanos que possuíssem o maior valor de dinheiro poderiam compra-los , principalmente os que possuíam a mesma qualidade que si: um rosto perfeito e agradável ao toque assim como uma pessoa normal, um humano como todos os outros, porém , ainda mais bonito ao ver.
A mulher quando foi até a loja exigira o mais perfeito, o de aparência mais bonita e fina . Exigiu algo que pudesse satisfazer o coração duro da menina que se sentia sozinha e presa dentro da mansão.
Mais uma vez, depois de muito esforço Chi Hoon podia vê-la partir para o colégio sendo acompanhada pelo motorista que escutava suas reclamações se esforçando para manter a mesma paciência que o robô possuía, porém de forma falha por ser um humano.
Em todo o seu tempo, Chi Hoon servia com lealdade a todos da casa.
As empregadas o amavam, assim como a cozinheira chefe que sempre elogiava as mãos bonitas que o mesmo possuía ao amassar as massas de uma tão precisa e cuidadosa , o mordomo o cumprimentava sempre e o motorista pedia-lhe conselhos assim como a senhorita costureira que não sabia o gosto da menina quanto ao vestuário. Porém, seu único defeito fora saber demais.
__Senhora Mei...-Chamou baixinho ao encosta-se no batente da porta observando a mulher cortando as verduras enquanto cantava.
__Chi Hoon! -Sorriu de forma serena ao olhar para trás e ver o robozinho adentrar a cozinha __Voce quer alguma coisa filhinho?-Perguntou com carinho
__Eu gostaria de fazer uma pergunta para a senhora. -Respondeu ao aproximar-se. __Porém não quero lhe atrapalhar...
__Você pode dizer o que quiser Chi Hoon.
__Nosso senhor é o chefe daquela organização criminosa de Londres?
A mulher assustou-se com a pergunta , olhando para um lado e para outro para ter a certeza de que ninguém mais estaria lhes ouvindo.
__Não há ninguém aqui senhora Mei, somente nós dois.- Falou.
__Menino! -Repreendeu ao secar as mãos no avental __Você não pode dizer coisas assim Chi Hoon, as paredes tem olhos e ouvidos.
__Me desculpe...
__Se nos ouvirem podem até nos matar...
Mei trabalhava a muito tempo na casa grande e com certeza sabia dos segredos da família a qual guardava em segurança para que nada de ruim lhe acontecesse, porém como poderia mentir para o menino?
__Sim Chi Hoon, nosso senhor governa o crime em Londres e em Seoul.
__Ele foi responsável pelo assassinato de Elisabeth?
__Sabes sobre Elisabeth? -Perguntou
__Eu assisti ao jornal. -Respondeu ao faze-la suspirar em alívio __ Foi algo horrível senhora Mei.
__Mas por que me perguntas isso?- Quis saber.
__Porque eu pretendo acabar com isso rapidamente senhora Mei.
A mulher levou as mãos até os lábios tampando-os em desespero.
__Não se preocupe, nada lhe acontecerá...-Não pretendia dizer o seu nome __ Porém , eu não suporto mais viver dentro de um lar onde matam os próprios irmãos.
Para Chi Hoon todos os humanos lhes pareciam de uma mesma especie, de uma mesma família, como irmãos,o que intrigava profundamente a família que se sentia sempre superior.
__Há coisas que nós não podemos resolver pequenino. -Aconselhou ao voltar de encontro as panelas __ Isso é algo que não podemos resolver, vamos deixar com que o destino o faça.
__O destino não irá faze-lo pois isso não o cabe fazer. -Respondeu __O que está nas nossas mãos diante de nossos olhos é para a nossa responsabilidade. -Constatou ao ver os olhos assustados de Mei __De qualquer forma , eu agradeço por todo o carinho que recebi de ti em todos esse tempo senhora Mei. -Sorriu
Teve vontade de abraça-lo, de dizer o quanto ele era precioso e diferente , de dizer que parecia-lhe o filho que nunca tivera, porém ao lembrar-se do perigo que corria ao mostrar afeto a alguém que iria incriminar o seu senhor , apenas abaixou o rosto de encontro as panelas, enquanto na cozinha se fazia apenas o silêncio.
__Senhora Mei...-Chamou sem obter uma resposta.
Não obstante , tornou a chama-la a atenção:
__Senhora Mei...
A mulher caminhava pela cozinha como se não pudesse ve-lo , como se ele não estivesse ali, o que apenas o fez compreender o medo que sentiam os seres humanos.
__Tudo bem...-Respondeu ao sair da cozinha sentindo o peito doer, assim como a mulher que a fechar a porta terminou-se em lágrimas de angústia ao constatar que perderia o seu menino.
A família por outro lado, sem hesitar não se importava com o fato de destruí-lo se desobedecesse as ordens ou se atrevesse a questionar. Deveria servi-los como a máquina que era, porém poderiam muito bem destruí-lo , devolve-lo ou o jogarem fora simplesmente como dizia Wu Fan.
__Chi! -Gritou o menino malvado quando o viu adentrar a biblioteca .__O que está fazendo aqui? -Riu __Vai me dizer que você gosta de ler?!
__Eu irei limpar os livros. -Respondeu simplório.
__Mas isso é trabalho da Soo Hye , você quer o lugar dela também? -silêncio __ Agora você também irá cozinhar e fazer vestidos como a senhorita Anne?
__Eu não posso costurar , me machuco com a agúlha...
__Ah...me machuco com a agulha. -Debochou __Você é tão feminino Chi Hoon ...-Continuou a implicar enquanto via a cintura fina do menino se mover em frente as prateleira dos livros .
O rosto delicado de Chi Hoon sempre chamava a atenção, assim como sua pele incrivelmente branca e macia , o seu corpo esgui o dava o aspecto refinado , e a forma delicada como andava e se movia criava ainda mais inveja no coração do menino.
__Parece uma menina...
__Deseja alguma coisa Wu Fan?- Perguntou a fim de terminar com aquilo.
__Eu quero que você experimente uma coisa. -Respondeu ao lembrar-se dos amigos que estavam assentados na sala de estar a espera do robô inocente.__Vem comigo...está lá em baixo.
Já sabia do que se tratava , Wu Fan não perderia a oportunidade de insultar a sua beleza sub humana , e mesmo sabendo a suportaria pois fora criado para ser perfeito, mesmo se sentindo a parte dos sentimentos.
Chi Hoon era a perfeição , e por mais incompleto que se julgava , o assunto espalhou-se por todo o mundo, finalmente havia sido criado algo que pudesse mudar a vida dos seres humanos a ponto de facilitar suas vidas, ajuda-los ou até mesmo faze-los companhia , assim como fazia o pequeno Chi Hoon que fazia a lição de casa, arrumava o quarto, apagava as luzes, dizia boa noite e bom dia independente da menina escuta-lo ou não.
Ajustava os sapatinhos aos pés de sua ama, ajudava-a com o estudos de francês e acompanhava-a em festas importantes onde sempre as amigas a invejavam pela presença do robô.
A única coisa que Chi Hoon não poderia , era se tornar um mentiroso, o que sempre era questionado pela família que o chamava de defeituoso.
O seu defeito fora descobrir que o mundo , por mais que fechado para si, parecia-lhe mal.
__Cheguei!! -Gritou o jovem Wu Fan ao descer as escadas correndo , vendo que Chi Hoon havia parado no meio do caminho __Anda logo seu idiota!
__Wu Fan , cadê a menina que você falou?- Perguntou o amigo
__Anda Chi Hoon!- Insistiu.
Chi Hoon desceu as escadas silenciosamente enquanto sentia seu rosto esquentar pela vergonha.
Os amigos sabiam que se tratava de um robô, pois naquela época era o privilégio de toda criança rica porém nenhum deles se assemelhavam a Chi Hoon.
__Wu Fan não parece ser um menino...-Constatou o mais novo __Por que colocou um vestido nele?
__Porque eu quero me divertir.
__Não podemos fazer isso com nossos robôs. -Voltou a protestar __ Tudo bem que não possuem sentimentos, mas mesmo assim Wu Fan olhe o rosto dele.
O jovem encarou o rosto simétrico e fino do robô se que ajustava perfeitamente na peruca loira que o obrigara a colocar , desistindo finalmente de insulta-lo na frente dos outros.
__Billy , você é um medroso. -Falou ao encarar o amigo __Suma daqui Chi Hoon e não apareça na minha frente .
Suportar as humilhações de Wu Fan nem sempre era o pior de tudo, já que tinha sempre os empregados para conversar . O pior era todas as noites escutar as reuniões.
Escutava os planos , escutava as gargalhadas e sabia perfeitamente que tratava-se de mais um crime.
Todas as noites WuFan e os demais rapazes saíam da casa, a passos nervosos , aos quais todos omitiam e apoiavam o seu querer, enquanto a senhora e a menina dormiam e os crimes ocorriam pelas rodovias.
Infelizmente tudo o que aprendera com relação aos humanos com o tempo que passou estudando-os enquanto os mesmos o estudava e o formava naquele laboraório , era o fato de que não importasse o quanto inteligente fossem, eles sempre iriam querer mais , não importava o quão alto poderiam alcançar eles sempre iriam querer subir mais degraus, não importasse o quanto as pupilas brilhassem, o quanto o coração batesse dentro de si, nunca se contentariam.
Então surgiu o famoso caso da Garota de Fita vermelha, que escandalizou toda Londres chegando até os ouvidos de Seoul e do mundo . Foi neste momento que decidiu agir . Não havia mais tempo para esperar , iria dizer à polícia que sabia a respeito dos criminosos, que sabia à respeito de todos os malfeitores e de tudo o que faziam.
Iria sair pela primeira vez sozinho e procurar pela primeira delegacia, pois possuía todas as provas nos papéis que pegara da mesa de seu senhor pela manhã e em sua memória.
__Por que está vestido como uma mulher? - Perguntou a senhora __Não me diga que outra vez o Wu Fan...-Parou de falar ao adivinhar que tudo provinha de seu filho __Chi Hoon não ligue para isso.
__Eu não me importo . - Respondeu ao sorrir __A saúde de Wu Fan é mais importante.
Ela poderia agradece-lo, apesar de viver como o escravo que deveria ser , não fazia por dever, poderia muito bem ignorar ou machucar Wu Fan da mais terrível forma, porém o fazia por afeição, o fazia por carinho, o que todos desprezavam e pensavam não existir dentro daquela máquina de aparência humana.
Ela nunca lhe agradeceria, ela nunca olharia em seus olhos de igual forma, nunca o consideraria importante. Sentia-se como um brinquedo, e pouco a pouco se acostumava com isso, com o fato de que os humanos não se importavam com os outros independente do que fizessem, não seriam reconhecidos diante dos olhos dos orgulhosos e indiferentes.
__Chi Hoon - Chamou-lhe __Eu não se você está sabendo , porém hoje foi o dia escolhido por Jhon para receber a visita de ( ) com as suas propostas.
__Eu me lembro. -Respondeu .
Sabia muito bem do que se tratava , apesar de todo o cuidado que possuíam ao saírem e entrarem naquela sala , 0 homem não escondia nada de si. Conversavam na sua frente , lhe pediam favores, pediam para que guardasse segredo e que fingisse.
Não estava mais apto a suportar , não mais...
__Mao e Wu Fan irão sair com os amigos, e eu não estarei aqui , por isso peço a você que tome conta de tudo e que não deixe com que nada saia do controle. -Explicou a mulher ao desviar seus olhos dos de Chi Hoon e encarar o chão, em um misto de ansiedade e preocupação.
__Algo lhe incomoda Senhora Fan?
Algum tentavam esconder a sua dor, preferiam não chorar na frente dos outros, porém ficava sempre tão claro os seus sentimentos...
Quando apertavam o lábio inferior com os dentes brancos , quando encaravam o chão, quando os lábios se deformavam em um sorriso , quando mentiam , quando assopravam com sarcasmo, ou quando demostravam o desejo, o mais perigoso e astuto sentimento que poderia perceber ...seria problemático se um dia o sentisse, pois assim , como um humano pela primeira vez não saberia como agir.
A todo momento fingia. Fingia não sentir, fingia que poderia ser dominado, fingia ser um escravo , por simples afeição, por simples carinho e desejo.
__Eu posso ver a preocupação em suas feições...-Continuou.
Desejou tocar a sua face com as pontas do dedos , assim saberia que se ela estivesse quente poderia ajuda-la a se acalmar, ou se estivesse gelada a perguntaria o que lhe estava acontecendo.
Porém não poderia simplesmente tocar a face de sua senhora daquela forma, apesar de sua beleza arecer-lhe tão perfeita como a sua , não poderia toca-la e sentir a sua temperatura , nem mesmo interpretar as suas feições de uma forma mais íntima, não poderia aproximar-se dos humanos, pois eles não deixariam.
__Eu estou com um mal pressentimento...-Parou de falar ao notar os olhos do robô seguindo o movimento de seus lábios que se moviam enquanto falava e suspirava em meio a sua própria confusão.
Em seu interior , a senhora perguntava-se como poderiam criar uma máquina tão perfeita, como uma anjo, como um ser humano perfeito que nunca existiria na face da Terra .
Admirava-o profundamente , sentia desejos , sentia perturbações, sentia medo , sentia o rosto esquentar concedendo calor ao seu pescoço e a todo o seu corpo que de igual forma se aquecia.
Por um acaso poderia se aproximar? Poderia dize-lo o que seu corpo sentia quando aquela áurea gentil lhe envolvia com serenidade?
Nunca poderia dize-lo...Não deveria tocá-lo.
__Chi Hoon! -Ditou severa __O que está fazendo?
__Estou perguntando-lhe o que tanto lhe perturba...-Respondeu baixinho ao aproximar-se ficando a centímetros de seu rosto rubro e quente.__Está tão quente...-Continuou ao tocar com as costas das mãos a testa da mulher que lhe encarava assustada , porém sentia-se aliviada por finalmente entender como seria o toque suave daquelas mãos tão brancas e gentis .
__Eu...estou bem! -Falou firme ao se afastar bruscamente e respirar fundo retornando a sua postura __ Eu apenas quero que cumpra com suas obrigações enquanto eu estiver fora Chi Hoon.
__Claro.-Respondeu simplista __Não precisa se preocupar Senhora Fan.
Sorriu de forma nervosa, ainda balançada pelo acontecimento. Dessa vez chegara tão perto...tão perto de dizer-lhe . Sentiu que quase tocaram-se os lábios, sentiu que o coração batera mais forte , mais forte do que quando lhe tocava o marido, muito mais forte do que os beijos do outro, muito mais forte do que o sentido que lhe mantinha ali.
Em meio a tantos devaneios, um deles era o fato de que quando tudo acabasse gostaria de salvar pelo menos a mulher...
Pecava várias vezes, oh como pecava enquanto pensava nela!
Pecava em ser uma máquina com sua própria opinião, com seus desejos...Pecava em planejar contra o seu senhor e amar a sua esposa, além disso pecaria em mentir para a polícia dizendo sobre a inocência que possuía os olhos azuis e os cabelos louros da mulher que alimentava sentimentos em si...
Ela era igualmente uma criminosa...a qual amava.
Naquela tarde, a única coisa que vira antes de deitar-se na cama que lhe fora permitida , foi o salão quieto onde qualquer alfinete que caísse poderia fazer o maior dos ruídos, e os quartos vazios , longe da presença da mulher, da senhorita exigente e do menino mal educado.
Se não fosse o estalar dos sapatos de couro pelo chão, poderia cerrar os olhos e dormir naquele momento mesmo.
Não poderia manifestar-se ainda, e não pretendia sofrer ao assistir as reuniões, se bem que pela sua audição apurada , poderia escutar de qualquer lugar a grotesca conversa.
A única coisa que lhe assombrava era o silêncio, o estranho silêncio que seguira do estrondoso e preciso tiro.
Levantou-se rapidamente, descendo as escadas discretamente , aproximando-se do grande salão e espiando pela fresta da porta o seu senhor que em suas mãos possuía uma arma. A mesma que o viu guardar na gaveta enquanto lhe explicava como deveria se comportar.
Não sabia o que fazer, mas naquele momento sentiu em seu coração pela primeira vez, o desespero de um humano.